Tiro, porrada e bomba Como aprender a fazer cenas perigosas em uma escola para dublês

Uma carreira em construção

“A função do dublê ainda é mal divulgada nos dias de hoje, mas posso afirmar que está se profissionalizando, cada vez mais”, garante o pesquisador de elenco e sócio da agência, Marcos Mascaretti, de 40 anos.

É por meio do pesquisador que acontece o primeiro contato entre um determinado filme em si e a equipe para as cenas de ação. “Nós recebemos um briefing, que geralmente integra o roteiro total da obra, e um segundo roteiro, menor, decupado apenas com as imagens de ação”, explica.

É com base nesse descritivo, afirma, que estarão detalhes da cena como, por exemplo, um atropelamento de um ciclista, uma queda de escada, um tiroteio etc.Simon Plestenjak/UOL

Simon Plestenjak/UOL

Autorização do Exército

Aliás, por falar em tiroteio, imagine as cenas de ação de um filme como, por exemplo, “Tropa de Elite” (2007). A burocracia e as medidas de segurança em cenas com armas de fogo —haja tiroteio no longa de José Padilha— exigem autorização prévia do Exército Brasileiro, o informe com número de disparos cenográficos que serão feitos e, posteriormente, a devolução dos cartuchos, que são de festim.

É diante dessa solicitação que o pesquisador direciona os profissionais para cada tipo de cena. E não pense que esse mercado vive só de proezas. “Existem outros tipos de dublês, como é o caso dos stand-ins, que são atores substitutos de corpo inteiro ou, apenas, de partes, como pernas e mãos”, complementa Mascaretti.

Quando fala da falta de divulgação da categoria, o pesquisador refere-se, por exemplo, à inexistência de um órgão de classe, equivalente ao Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos e Diversões (Sated), além de dados e números sobre a atividade, tabelas de preços no mercado, entre outras regulamentações.

Nos Estados Unidos, a classe é gerenciada pela Stuntmen’s Association of Motion Pictures (Samp), criada em 1961, que atua de forma segmentada por habilidade do dublê: aquático, armas, ação, fogo e chamas, equestre, combate, esportes radicais etc.Simon Plestenjak/UOL

Simon Plestenjak/UOL

Comitê de boas-vindas

Já com as vestimentas fornecidas pela escola de dublês —felizmente, foi para isso que pediram minhas medidas—, me dirijo até um tatame escuro, em uma sala quadrada que mantém nas paredes espadas katanas dependuradas, um quadro com uma cena de Sean Connery vivendo o James Bond, ladeado por uma tela com um deslocado Charles Chaplin.

Os alunos estão descalços, sentados e ouvindo a fala de um policial militar, o sargento das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), Silvio Oliveira, 43 anos, das forças especiais da corporação em São Paulo. Oliveira discursava pouco sobre os trejeitos da categoria.

“Um militar das forças especiais, em todos os filmes do cinema, reparem, tem sempre algumas características em comum, mesmo no horário de folga”, explica, enquanto se movimenta, citando exemplos como o elenco de “Predador “(1987) e “Falcão Negro em Perigo” (2001).

“O corte de cabelo é sempre baixo, no mesmo estilo, é muito comum usar uma camisa de botão aberta, por fora da calça, e uma camiseta escura por dentro do cinto; esse relógio de estilo esportivo, mais robusto, um calçado com estilo de bota e por aí vai”, prossegue.

A presença do sargento na sala de aula faz parte do cronograma da escola. De acordo com Mascaretti, a ideia é trazer, periodicamente, algum profissional para enriquecer o repertório dos dublês para as oportunidades de trabalho.

“Esse é um laboratório e tanto”, argumenta o sócio do centro de treinamento.

O dublê é, antes de tudo, um ator, e ele deve saber como se portar para fazer a sua cena de ação, seja um soldado ou seja um padre.

Além da postura, Oliveira também explicava o manejo de uma pistola .40, descarregada, diante da plateia de alunos. Nesse momento, entra em cena o principal instrutor e também sócio da escola, o dublê profissional Bruno Santana, 30 anos, que interrompe a atividade para me apresentar.

“Pessoal, queria que todos dessem as boas-vindas ao visitante que está aqui hoje conosco, do UOL, que vai aprender a ser dublê por um dia e vivenciar algumas experiências com a gente”, me disse, de forma simpática e acolhedora.

Nesse momento, ele também sacou uma pistola e, enquanto a plateia me aplaudia de forma contida, efetuou um disparo na direção de um aluno (também dublê), que estava ao meu lado, que desencadeou um estrondo muito forte e um buraco gigante em seu peito.

O barulho estremeceu meu corpo inteiro e deixou um zumbido no ouvido direito por alguns segundos. Tempo suficiente para eu perceber a sala toda rindo do meu susto, enquanto a vítima do tiro, que simula o barulho e o estrago de uma escopeta calibre 12, veio com o bombeiro civil me acudir.

WhatsApp ATENDIMENTO VIA WHATSAPP