Ruas em chamas – Dublês

Do corredor chega Washington “Notorious B.I.G.” Gomes, de 36 anos. O sujeito lembra mesmo o rapper rival do Tupac Shakur, mas em melhor preparo físico. Há um ano, faz parte da equipe de dublês do centro de treinamento, em papéis que precisam de um cara alto, forte e com cara de mau.

“Quanto custa um dublê no Brasil?”, pergunto. “Muito menos que nos Estados Unidos”, enfatiza Bruno Santana, exemplificando que projetos em Hollywood, onde a profissão é bem estruturada, começam nos US$ 100 mil e podem ultrapassar US$ 1 milhão, dependendo da complexidade da cena. “No Brasil é outra tabela, um atropelamento, por exemplo, custa cerca de R$ 1,5 mil, uma cena de corpo em chamas, R$ 7 mil”, exemplifica.

Em casos mais extremos, como explosões de carros e capotamentos, os valores começam em R$ 70 mil e podem ultrapassar R$ 100 mil. Nessas cenas, o modelo e o estilo do carro que serão danificados no acidente são incluídos no orçamento.

Pesquisador de elenco, Marcos Mascaretti explica que sua produtora trabalha com dois modelos básicos de remuneração. Na hipótese de um pacote de efeitos especiais, é acionada uma certa quantidade de dublês, que lidam com tiros, sangue cenográfico, locação de armas, ambulância, bombeiros. Nesses casos, a remuneração é dividida entre a equipe, conforme o número de diárias.

“Já no orçamento individual, como uma cena de atropelamento de ciclista, o pacote tem o cachê do dublê, duas bicicletas [uma nova e a ser destruída], o coordenador de ação de cena e um bombeiro civil —nessa modalidade, os valores são cobrados individualmente”, conta.

Tanto Mascaretti quanto Santana afirmam que, no último ano, houve um aumento na procura por dublês no país. Além de uma profissionalização que se encaminha sobre a função, eles apontam as plataformas de streaming, em especial a chegada das produções da Netflix, nesse crescimento do mercado.

Em 2020, garante, afirma ter recebido propostas de orçamento em todos os primeiros dias do mês de janeiro.Simon Plestenjak/UOL

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Ruas em chamas

As atividades de treinamento a seguir costumam ser realizadas pela escola em kartódromos, reservados exclusivamente para a dinâmica. Para a participação do UOL, foi escolhida uma rua de pouco movimento na região da escola, onde a equipe se posicionou para as cenas de ação.

Pamela Bauer, de 31 anos, praticante de atletismo de força ou strongman, se aproximou de uma perua Palio Weekend e, com uma corda amarrada nos seus cabelos loiros, passou a arrastar o veículo por 15 metros. Soube, depois, que a atleta de Mogi das Cruzes é considerada uma das mulheres mais fortes da América do Sul na modalidade.

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Dois caras numa moto

O dublê Luiz Roberto ‘Mosquito’, de 38 anos, é especialista em manobras com carros, motos, bicicleta, skate e patins. Em um dos exercícios, ele “rouba” o telefone celular de uma garota e percorre, ao menos, 100 metros com a moto de trilha empinada, em alta velocidade, sendo perseguido por um carro. Quem passasse por ali pensaria se tratar de um assalto de verdade.

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Força na peruca

Carolina Barbosa, de 33 anos, tem o corpo besuntado com um gel, veste uma roupa molhada e, por cima, outras vestimentas secas. Seu cabelo fica preso colocado por dentro da blusa. Em seguida, ela recebe uma touca e um capuz. Ainda aplicam uma cola inflamável em suas costas. Ela é então incendiada, correndo por alguns metros pela rua e deitando-se no chão, de bruços, como uma fogueira humana.Simon Plestenjak/UOL

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A chapa esquentou

A cena dura cerca de dez segundos. Os professores me explicam que, sob preparação adequada, é possível prolongar o tempo das chamas no corpo do dublê.

Um bombeiro civil controla a situação com um extintor e, rapidamente, Carolina está em pé. Uma vizinha da rua, que assistia à cena, grita da janela, aplaudindo: “Caramba, e ainda por cima é uma mulher de cabelos compridos”!

Pergunto sobre a sensação de estar em chamas. A dublê me conta que não há dor, mas um calor muito intenso e uma pressão, que aumenta conforme ela tenta se movimentar enquanto o fogo está nas suas costas.Simon Plestenjak/UOL

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Proezas nas telas e na vida real

Como se vê em filmes como “Velocidade Máxima”, veículos automotivos são muito usados em cenas de ação. Após uma arrancada, com direito a cantada de pneus, um carro passa à frente de onde estávamos e, da porta de passageiros, salta o dublê Bruno Santana, devidamente protegido com joelheiras e cotoveleiras, rodopiando no asfalto após a queda e, logo em seguida, se levanta como se nada tivesse acontecido.

No início da sua carreira, há quase vinte anos, quando ser dublê ainda era um sonho do jovem, ele teve de reproduzir essa cena, mas fora das telas, nas ruas de São Paulo. “O carro que eu dirigia a quase 100 km por hora perdeu o freio e eu não tive outra opção, tive que saltar dele em movimento”, recorda-se, sorrindo.

Santana é um sujeito musculoso, de baixa estatura, com visual black power e camisas floridas. É impulsivo e demonstra ser bastante técnico. Faz e incentiva a equipe a fazer coisas ousadas, mas mantém um semblante sério, como quem quer mostrar o tempo todo que aquilo ali não é brincadeira.

Um dublê em ação precisa de calma, paciência e coragem. Vou te falar: eu não tenho medo.

Mas, em seguida, ressalta que todas as ações mais ousadas, tanto na escola quanto no mercado, são acompanhadas de uma estrutura obrigatória de segurança —como bombeiros, ambulância e paramédicos.

Um glossário do mundo dos dublês

  • SaltarAtenção: dublê não pula! O verbo pular não faz parte do glossário da profissão. Eles saltam, de carros em movimento, de janelas em andares altos, de escadas etc.
  • Gel antifogoÉ o produto aplicado no corpo do indivíduo que preserva a integridade física durante as cenas com fogo. Geralmente, é importado.
  • Tiro e sangue cenográficosSão produzidos por um sistema com um miniexplosivo, acionado por fios que ligam um disparador ao equipamento montado sob a roupa do ator. Um invólucro com o sangue cenográfico arrebenta no momento do disparo –segundo a equipe, o produto pode ser lavado da roupa. É o que eu espero, inclusive.
  • CapotarReproduzir o capotamento de um veículo não é novidade na dramaturgia brasileira. A equipe de efeitos especiais cria uma rampa para que o carro tire as duas rodas do chão, para poder tombar em seguida. O automóvel recebe uma rígida preparação de segurança, com estrutura interna de proteção, para que o piloto não seja esmagado durante a colisão.
  • Explosão controladaÉ a dinâmica de explodir alguma área delimitada para uma cena de ação, onde o fogo vai atingir uma área restrita – às vezes, utilizam leite em pó durante o estouro, para que o efeito tenha um registro visual mais impactante.

Uma questão de DNA

Qualquer pessoa interessada no tema pode participar das aulas para a formação de dublês. As mensalidades, conforme o nível do aluno e o tipo de treinamento desejado, custam a partir de R$ 400.

No entanto, os sócios do centro de treinamento concordam em afirmar que, na vida desses profissionais, é preciso ter uma inclinação, um interesse pela indústria e, principalmente, pelos desafios que essas cenas proporcionam.

“No curso, os aprendizados são feitos de forma gradual —o estudante não vai fazer as dinâmicas de rua antes de um longo preparo”, reforça Santana. Antes da primeira aula, é feita uma triagem, uma abordagem física e psicológica para que a academia tenha conhecimento do perfil do futuro aluno.

Para o mercado, é preciso estar preparado para um segmento bastante concorrido, com poucas vagas e muitos profissionais disputando as oportunidades que aparecem, diz Mascaretti, enquanto Santana e sua equipe arrumam o dispositivo sob minha camiseta, para a realização de um disparo cenográfico com arma de fogo.

Para encerrar a reportagem, eu seria baleado —de forma ficcional, vale ressaltar

Apesar de ser o tiro chamado de “normal”, ou seja, não seria o estrondo da calibre 12 que quase me ensurdeceu, eles resolvem colocar um colete de segurança a mais, para evitar qualquer impacto indesejado.

Santana dá o ok, um ator mira o revólver para o meu peito e efetua o disparo. No meu peito, não sinto nada, apenas o estampido… E posso ver as gotas de sangue jorrando para o alto.

Resolvo entrar em cena e passo a atuar. Grito e simulo um desmaio para trás, para o desespero da bombeiro civil que tenta segurar meu corpo em queda.

Ouço alguém que estava por perto dizer “é impressionante como dá a sensação de termos sido baleados, de verdade”.

Confesso que não me senti alvejado na vida real, mas, o repórter-dublê, esse sim, encerrava sua breve carreira ali, estirado sobre a poça de sangue cenográfico.

Simon Plestenjak/UOL

Simon Plestenjak/UOL
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