Dublê: entre a paixão e o risco

É difícil não se impressionar com cenas de ação em filmes que mostram pessoas literalmente pegando fogo, ou atores que saltam de um carro em movimento. Na maioria das vezes, esse trabalho é realizado por dublês profissionais, que substituem atores principais das tramas em várias situações, principalmente, naquelas em que o protagonista não tem habilidade física ou experiência para exercer a cena. Com raízes fortes no Grande ABC, profissionais da agência Double & Atores reforçam que, além da paixão, ser dublê exige técnica, atenção e coragem.

Como peças-chave de filmes, séries e videoclipes, os mais de 100 profissionais da agência, além de carregar técnicas para ser dublê, permanecem realizando treinamentos e cursos para aperfeiçoamento. “Aqui na agência temos os professores que se revezam para explicar técnicas e capacitar profissionais. Por exemplo, temos dublês que ensinam boxe e explicam técnicas para encenar luta na prática”, explica o diretor da agência, que também é agente e dublê, Bruno Santana, 31 anos, natural de Diadema.

Ele conta que, desde criança, começou na dança de rua e, após esse período, sabia que seu destino seria na televisão, no cinema e também no teatro. “Muitas pessoas pensam que o sucesso é do dia para noite, mas, na verdade, é muito além disso. É treino, técnica, habilidade e gostar do que faz. Tanto que no grupo dos atores da agência tem pessoas de artes marciais, acrobacias e parkour (exercício que usa o corpo para ultrapassar obstáculos)”, comenta.

Santana cita que entre as cenas que mais gosta de fazer estão as ações com os saltos de carros em movimento e os capotamentos de veículos, que exigem, além de equipamentos para proteção, como luvas, joelheiras e cotoveleiras, atenção para não se machucar. “Uma cena não é igual a outra, então, caso dê errado com um deslize, por exemplo, precisamos também saber como cair. Arranhões e machucados sempre tem, mas, graças a Deus, nada grave”, afirma. 

Hoje, a agência fica na Vila Mariana, em São Paulo, e qualquer espaço aberto pode ser local de treino para a equipe que, inevitavelmente, atrai todos os olhares das pessoas que passam pelo local. 

A equipe do Diário acompanhou a encenação dos profissionais, que treinaram saltos de veículo em movimento e incêndio corpóreo. Para atear o fogo, o preparo é feito com roupas previamente molhadas e uma cola específica que auxilia o fogo a se espalhar mais rápido pelo corpo. Cerca de 15 segundos depois, os extintores estão prontos para apagar as chamas. “É adrenalina pura”, reforça Bruno. 

De acordo com o diretor, os trabalhos são fechados conforme contratos de cada empresa e ações a serem desempenhadas. Conforme a necessidade do serviço, Bruno chama os profissionais e realiza uma seletiva prévia para encaminhar aos próximos trabalhos. Dublês podem ganhar diárias que variam de R$ 800 a R$ 2.000.

Pandemia derrubou receita e fez grupo perder contratos

Afetada diretamente pela pandemia do novo coronavírus, a agência Double & Atores prevê retomada dos trabalhos com a flexibilização da quarentena. Mesmo que o ano já esteja terminando, os treinamentos foram intensificados e o grupo iniciou a busca por novos contratos.

“O ano de 2020 era para ser ótimo, pois começamos muito bem mas, infelizmente, a pandemia nos chateou bastante. Mesmo o assim, durante este período ainda entregamos videoclipes e também estreamos em grande produção que, inclusive, está na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, detalha o diretor da Double & Atores, Bruno Santana.

Os atores da agência também precisaram suspender as gravações de uma série produzida pelo canal de televisão HBO e, por enquanto, não há previsão de retorno. 

“Tínhamos contrato de R$ 800 mil na produção de um longa-metragem, no Interior de São Paulo, que foi suspenso. Outro serviço, todo com efeitos especiais, de R$ 400 mil, foi cancelado”, lamenta Santana. Antes da pandemia, profissionais da agência trabalhavam como novelas, filmes, séries e videoclipes.  

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